Text 22 Mar 1 note miséria de gênero

A excisão é a retirada do clitóris da menina pequena. Existem algumas culturas em que isso é tido como uma prática normal. A ideia, do ponto de vista da nossa cultura, parece bem selvagem, e pessoalmente ainda não consegui achar alguém tacanho o suficiente para não se horrorizar com a coisa.

A dor provocada não é muito grande, e provavelmente acontece antes mesmo da menina poder se lembrar. Quanto à pura violência física, a excisão não é muito significativa, um espancamento por exemplo é um trauma muito maior. No entanto, me parece que a excisão é o arquétipo da violência contra o feminino.

Não se trata de uma recusa ou uma opressão, de uma retirada de prazeres, é algo muito mais profundo. A excisão elimina a própria possibilidade de uma experiência. É a aniquilação da própria potencialidade de prazer do corpo feminino. É um ataque num nível que parece ser mais real que a própria realidade do corpo: Negação do próprio SER feminino.

Enquanto a excisão é vista como uma barbárie, a circuncisão masculina é vista como normal.

Anatomicamente, a pelinha do pênis (nome científico prepúcio) é a região mais densamente enervada do corpo masculino. Existem ali tipos de terminação nervosa que não existem em nenhuma outra parte do corpo. Em comparação, o restante do pênis tem a sensibilidade equivalente da pele, e a cabeça do pinto (ao contrário do que dizem as lendas) é praticamente insensível. A única coisa que se aproxima na anatomia humana é o clitóris feminino. E mesmo assim a circuncisão é tão comum que passa por fato científico que ela não altera a vida sexual do homem. Nos EUA metade da população masculina é circuncidada.

Estranhamente, embora o homem seja opressor e a mulher oprimida, a integridade corporal masculina é violada rotineiramente.

Por isso me irrita ouvir que só as mulheres sofrem com o preconceito de gênero. E quando aparece alguém pra dizer que o masculino também é vítima normalmente é na base do “homem não pode chorar”. Coitados deles, têm que prender as lágrimas! Oh!

Ninguém traz à tona o fato de que, por exemplo, a vasta maioria dos assassinatos é assassinato de homens, pela simples razão de que a vasta maioria das pessoas confinadas a vidas violentas são homens. Ou seja, na vasta maioria, os bandidos são homens. Mas aparentemente isso não pode ser uma questão de gênero.

Claro, esse é um problema muito difícil porque a sexualidade está muito próxima de nós, ela é uma parte grande demais de quem nós somos. Por isso é muito incômodo, muito trabalhoso questionar o gênero. É difícil aceitar que as coisas que nos parecem normais não são.

A diferença entre a violência física e a violência mais-que-física da excisão é exatamente essa diferença entre o que é normal e o que foge desse preconceito de normalidade. A proibição do prazer parece algo contra o qual temos que lutar, mas no fim é sempre uma proibição pouco eficaz. Mas tornar o prazer uma coisa anormal destrói esse prazer num nível maior.

O que a heteronormatividade faz não é colocar o homem sobre a mulher, mas antes tornar anormais outras formas de viver. O que o preconceito de gênero me tira, a mim homem, é o mesmo que tira às mulheres: A liberdade de SER.

Text 9 Feb 1 note inútêu

Inútíl, agente somos inútíl
Inútíl, agente somos inútíl
A gente faz tuiter e não consegue trendá
a gente faz fotolog e não consegue updateá
a gente faz foursquare e não consegue check-inzá
Inútíl, agente somos inútíl
Inútíl, agente somos inútíl
A gente joga Diablo e não consegue levelzá
a gente joga Farmville e não consegue decorá
a gente joga Wee e não consegue quebrá
Inútíl, agente somos inútíl
Inútíl, agente somos inútíl
A gente temos carro e não consegue viajá
a gente temos celular e não consegue falá
a gente temos MasterCard e não consegue todas-as-outras-coisá
Inútíl, agente somos inútíl
Inútíl, agente somos inútíl

Text 20 Jan 1 note eu e minha solidão

Como eu sou inteligente, e como eu adoro me pagar de intelectual, duas vezes me perguntaram se eu não me sentia sozinho (e foi incrivelmente sexy isso, as duas vezes). E eu quase achei que sim, mas…

Solidão não é bem a coisa. Claro que eu às vezes fico esperando as pessoas serem mais nerds das coisas, mas… O negócio é que eu não acho que eu sei as coisas certas. Essa minha aparente inteligência é só uma enorme curiosidade, e o longo prazo dela não é um sábio arrogante numa alta montanha, mas sim um vagabundo que tem enorme curiosidade pelas outras pessoas, que acha extremamente peculiar que elas possam ter tantas certezas e mesmo assim se acharem burras, que elas possam saber tacitamente tanta coisa e ainda crer numa abstrusa realidade maior que o achar delas mesmas.

Não, eu não sou solitário. Talvez eu seja bem menos solitário do que alguns…

Text 24 Dec 3 notes

“A história é escrita pelos vencedores”. Possível interpretação: A Narrativa é o critério de vitória.

“History is written by the victors”. Possible interpretation: The criteria for winning is Narrative.

Text 20 Dec 3 notes Política

The point of all this is that, ironically, the government really was the fun part, even though it had no tangible purpose, and once that was eliminated, there wasn’t much else to do. In the end, they really were playing NomicGame at a crowded diner in New Jersey

(From http://meatballwiki.org/wiki/LambdaMOO)

No fim, só discutir tem uma certa diversão, mesmo que seja discutir por nada. É porque em certa medida, tudo gira em torno de pertencer e excluir. É que eu não acabo na minha pele, uma parte definitiva do meu eu existe apenas no rizoma de todas as pessoas que eu conheço, então a política é também uma forma de homeostase. Mas reuniões não servem pra decidir nada, quem decide são pessoas, reuniões servem apenas para reproduzir grupos, é como a sexualidade dos grupos, nelas se implanta a ideologia do grupo sobre cada indivíduo —- e em alguns casos isso quer dizer upgrade de pessoas, mas nem sempre, e essa é a grande real razão de que depois de alguns anos todo mundo tem essa crise de que “Mas essa discussão já aconteceu 5 anos atrás {cara de pânico}”

Text 13 Dec 1 note ¿perder o controle racional?

Eu sempre me identifiquei com a minha razão, com a racionalidade, mas isso é porque eu passei toda minha infância pensando pra esquecer os sentimentos, e depois quando consegui entender que eu era mais que uma vozinha na minha cabeça que matuta e elocubra, descobri também que eu era uma exceção, que a maior parte das pessoas não se identifica com sua mente racional.

A maior parte das pessoas acha que esse lado “racional” é apenas uma fantasia de trabalho, um lado sério da vida a ser rapidamente esquecido nos bons momentos, na cerveja e no fim de semana, nos momentos de relaxar e ser você mesmo. A razão é uma imposição externa e incômoda, muito antes de ser sentida como “nosso eu”.

Por isso é muito estranho pra mim ver um psicólogo dizendo que as pessoas reprimem sua sexualidade por medo de perder o controle racional. Por exemplo que tal e tal pessoa se recusa a viver uma paixão porque aquilo iria além da sua razão. Mas se há um sentimento poderoso, que é identificado com o “eu” e com o “bom”, e esse sentimento está em oposição à uma racionalidade que é identificada com obrigações e imposições, não parece fazer nenhum sentido que alguém escolha a racionalidade, exceto as exceções como eu quando criança.

Mas é exatamente o contrário. As pessoas que mais evitam experiências de perda de controle são exatamente as que menos se identificam/identificariam com a razão. (Não tenho uma conclusão pra esse pensamento, mas seja como for, o medo não é liberdade…)

Link 12 Dec 377 notes Van Gogh's Genius as colorblind»

asada0:

Japanease version

The other day, I experienced the “Color Vision Experience Room” at the event of the Hokkaido Color Universal Design Organization (HCUDO), where I had invited to speak. The event’s main objective was to educate the public about the diversity of color vision which exists in…

Text 7 Dec

Se o custo-benefício do seu bicho de estimação é favorável, ou seja se o amor que você recebe dele te é mais significativo que o cocô que você limpa, isso significa que a sua vida social é uma bosta, e que você deveria investir mais em pessoas que em animais. Logo, bichos = problema, CQD.

Text 4 Nov 2 notes

sexy não é quando tudo na pessoa gira em torno de sexo.

sexy é quando a pessoa entendeu o seu comentário mirabolante sobre a influência da mídia na política transcontinental contemporânea e ela não precisou parar de pensar em sexo pra isso.

Text 29 Oct a plateia e o palco

Yiuki Doi dançando Vozes do Outono

(foto de Guilherme Melnik, fotoxopada)

A arte é importante em parte porque tenta fazer o impossível, e acho que por isso está destinada a sempre falhar mas sempre ser uma tentativa válida, mas há um desconforto nisso, há uma sensação estranha, e uma dúvida de que por mais que as pessoas vejam aquilo que estamos apresentando que no fundo no fundo aquilo só tem valor pela experiência que eu, artista, fiz de me aprofundar, de me questionar, de encarar minhas angústias e medos, então o próprio apresentar, a própria tentativa de comunicar, de pular esse abismo entre eu e você, essa tentativa pode ela mesma refazer esse abismo, porque ela cria a diferença entre a plateia e o palco. O próprio ato de apresentar já nega ao público a experiência.

Uma das tentativas de fugir desse “fazer o impossível” é colocar a plateia dentro do palco. No Cenas Breves vi um palhaço que chamava um “voluntário” e colocava o cara lá e meio que ficava zoando dele, e no final ri muito mais do cara do que do palhaço, mas puta situação desconfortável, e depois o palhaço pede mais um voluntário e fica fazendo piada que ninguém mais se dispunha, que era bem curitibano da plateia e tal. Mas: Sério? Que coisa desconfortável. E esse desconforto não vai fazer o voluntário se abrir pra experiência. Esse desconforto vai me fazer sentir mais e mais distanciado desse palco mesmo que eu esteja em cima dele, porque eu estou me defendendo da água que o maldito palhaço está jogando em mim, eu estou me defendendo e isso é o contrário da sensação da arte. Tentar pular o abismo entre o palco e a plateia (talvez porque seja uma boa metáfora para pular o abismo entre eu e o outro) é uma tentativa frequente na arte contemporânea, dessa arte que acha melhor apresentar no pátio que no teatro que assim o povo vê sem ter que ser puxado pra dentro do teatro. E é óbvio que eu também sou culpado desse, que eu também já tentei puxar pra dentro do palco. Mas talvez hoje não acho que esse desconforto valha à pena. Alguns anos atrás vi uma coreografia de uns europeus que ainda no começo da peça ficavam fazendo gestos chamando as pessoas para o palco. Só que aí um cara realmente foi pro palco e ficou meio andando meio dançando lá um tempo, e os bailarinos ficaram totalmente dentro da performance deles, não interagindo estritamente nada. E no dia seguinte o coreógrafo falou que existe uma responsabilidade de estar encima, que houve um monte de treinamento praquele momento e que se o cara se dispõe a subir ele tem também que arcar com a parte dele dessa responsabilidade, e se ele subiu ele tem que fazer aquele momento foda, ele tem que fazer aquilo especial, que os dançarinos não podem fazer isso por ele. Que é impossível pros bailarinos tornarem o cara parte do espetáculo.

E acho que esse coreógrafo tinha razão. Acho que é impossível. Mas também acho que a arte vale à pena porque tenta o impossível.

Vozes do Outono tem como palco um espaço coberto de confetes. E a plateia está sentada em cadeiras circundando esse espaço, e o confete vai até o pé dessa cadeira, e para chegar até essa cadeira você tem que pisar o confete e a sensação é a de pisar num palco, esse arriscado de pisar num palco, mas acho sutil, e durante a apresentação voa um pouco de confete nas pessoas, e depois da apresentação várias pessoas se jogaram no confete e acabou acontecendo uma certa guerra de confetes e acho que todos nós que estávamos ali naquele dia vamos passar um tempo achando confetes nas roupas, e no meio daquela bagunça me perguntei se aquelas pessoas estavam no palco ou fora dele, e onde quer que elas estavam não era com desconforto, era com uma brincadeira que, acho, está bem perto dessa abertura para a vida que é (uma das) parte da arte. E, putz, o bailarino é japonês e acho que é literalmente impossível entender o que passa na cabeça dele, mas ele tentou o impossível e, acho, chegou tão perto que foi lindo.

Text 27 Oct

hipster = nerd + maquiagem

Text 26 Oct 3 notes não é beleza

Tenho ouvido de algumas garotas que o que a sociedade mais exige delas é a beleza. Mas acho que é um engano isso. Não se espera delas que sejam bonitas, mas que se façam bonitas. Ou seja, a beleza não é importante, mas sim que elas se conformem ao estereótipo.

Saltos altos, por exemplo. Certamente mudam a postura da garota, evidenciando a bunda, mas não há razão pra acreditar que essa mudança seja um aumento de beleza. Tamanho de bunda é questão de gosto, e não há razão para que saltos sejam esteticamente preferíveis a sapatos baixos. Por outro lado, qualquer um usando saltos perde balanço e agilidade, de forma que a garota se torna fisicamente menos ameaçadora, agora que não pode nem correr nem defender a si mesma. Isso já não é mais questão de gosto. Saltos altos não deixam as garotas mais belas, eles as deixam mais fáceis de controlar.

Garotas por vezes assumem que o lance do salto é que a bunda empinada lembra sexo, e que portanto a sua beleza é uma forma de excitar os homens. Sem dúvida, essa é parte da coisa, parte de um sistema simbólico emaranhado, mas o modelo da fêmea excitante nunca é possuidora de poder. A mulher deve seduzir, mas nunca exigir. As características sexuais nunca aparecem sozinhas, elas estão sempre em função de uma imagem de feminilidade.

Parte da razão pela qual as garotas sentem pressionadas a serem bonitas é que a beleza é usada como competição de poder entre as garotas. Em outras palavras, dentro do grupo de mulheres a mais bela é tratada como a superior. Mas:

  1. não se trata de aparência mas de um personagem, de conformar-se a um modelo, e
  2. superioridade nessa escala de beleza não se traduz em capacidade de agir livremente ou em mais direitos dentro da sociedade.

Precisamos admitir que as garotas podem usar sua aparência para tirar benefícios dos homens, de muitas formas, mas esse mesmo tipo de exploração pode ser usado por garotas feias. A beleza só interfere quando mais de uma garota está tentando fazer o mesmo jogo com o mesmo cara ao mesmo tempo. Mas essa exploração aumenta a ilusão de poder, já que ela consegue o que quer, contanto que ela não queira poder algum. Sempre que tentar conseguir algo realmente importante ela perde essa beleza feita de uma imagem de menina indefesa. A imagem que ela precisa passar não é só a da garota que se faz bonita, mas também a da garota que não se importa com muito mais além de se fazer bonita. A chave da beleza não é aparência, mas uma atitude, uma externalização de formas de comportamento, e aqui há muito mais em jogo.

Claro, beleza é parte do processo, e superficialmente muito importante para as garotas, mas ignorar os julgamentos (profundos e cruéis) levados por essas imagens consideradas bonitas é uma enorme ingenuidade.


Design crafted by Prashanth Kamalakanthan. Powered by Tumblr.